ABERTURA

(partindo da casa 1, o Ascendente)

 Parto. 

 Nossa porta pro lado de fora. 

 Momento do primeiro respiro.

 Na astrologia, o primeiro respiro, momento em que se registra a hora de nascimento da criança vinda à vida,  é também como o ascendente. 

 Ascender: estar tomando luz, aparecendo aos poucos, vendo o mundo pela primeira vez, como o sol ascendendo, nascendo na terra. 

 O ascendente é a primeira casa dum mapa astral, a casa 1.  Coincide com o primeiro signo do zodíaco, Áries. Um signo regido pelo elemento fogo. São doze casas e doze signos, para cada casa um signo. Claro que cada mapa natal é desenhado a partir de uma data, uma hora e um local específico, modificando qual signo estará ascendendo, pela casa 1, na hora do nascimento de algo-alguém. 

 Aqui, falo sobre esse mapa de ninguém, o mapa-modelo, no qual aprendemos as organizações do estudo astrológico, em que a casa 1 - ascendente é regida pelo signo de Áries, faísca que faz nascer incêndios, pavio das explosões, estalo da biribinha no chão, o susto do início, do estouro, a surpresa da vida. 

Lesma - Nagasawa Rosetsu, séc XIX

 O nascimento solicita essa força vital, vontade de viver, lutar, aprender a respirar, abrir os olhos e arder, sentir gostos, cheiros, o incômodo do frio, sentir o corpo pela primeira vez, construir o corpo a partir daí. 

 Quando penso em abertura, penso em áries, fagulha, faísca, fogo. Não a toa, o elemento fogo é quem abre a roda do zodíaco.  Sendo quem abre o zodíaco e as casas, Áries é também a criança, a investigação de tudo, porque tudo é desconhecido. A criança tem também a questão da criação espontânea, com os instrumentos que dispõe ou que lhe foram transmitidos, a criança inventa sua linguagem, fabrica suas imagens, dá sentidos/significados de forma mais livre, inventiva. Modela, tendo em vista seus modelos. Aprende os modos e modifica-os. Transgride se preciso, desbrava caminhos. O caminho da criança, com o de Áries, é um constante encontro com o novo, um espanto contínuo. É preciso olhar para sua situação como pela primeira vez, analisar sem pré-concepções, agir perante o susto. Se deparar com o desconhecido. 

 Conforme crescemos, congelamos nossos sentidos, significados. Damos respostas fixas, entendemos as coisas numa verdade dura, sem inventividade. 

Já a criança se põe a criar, com as nuances da singularidade muito própria que lhe é tão cara, inventa seu destino.

 Quando inventamos nossos destinos, o caminho pode se dar duma forma mais bagunçada (aleatória?), diferente, como o da lesma dessa imagem, buscando por aí, deixando seus rastros, sem saber exatamente onde se termina e onde se começa, mas continuando a andar, investigando. Cada pessoa tem uma forma de modelar seu destino, os caminhos formados desde o nascimento (olha lá a casa 1 de novo!). 

 O caminho da casa 1 até a 12 é incerto, descontínuo. A única pessoa que pode mapear os movimentos de uma casa até outra é a própria, que nasceu com esse mapa. E ainda, ela também pode deixar que seu mapa seja uma abertura, uma interpretação ainda em aberto, também desconhecida, que se cria, modela, inventa, conforme as demandas internas e externas.

 Esse site é uma continuidade do meu caminho como astróloga, escritora, musicista e técnica de áudio. Um caminho cheio de nuances, imprevisibilidades, confusões, encruzilhadas, escolhas. A inauguração dele é como essa porta pruma vida dum lado de fora, o lado da virtualidade. 

 É preciso ter bravura, no sentido ambíguo da palavra, para fazer nascer, tirar da cartola. 

 Criar um livro, um site, compor uma música, trabalhar, laborar, existir. 

 É preciso ter bravura. 

 Meu nome é Anna Vis. Vis é um nome próprio latino, nome de uma das titãs, filha de Gaia (terra) com Urano (céu), é a força de violência nos seres, todos os seres, desde o minério até o humano. Tudo que vive tem uma força de violência, de ação no mundo. É preciso aprender os espaços alheios e saber dar medida e limite às violências, mas quero aqui abranger o significado da força de violência, pra esse lugar também de luta, em que com unhas e dentes defendemos o que amamos, o que necessitamos. Moradia? Comida? Conhecimento? Pelo que precisamos lutar?  

 

 Que o jogo esteja aberto para respostas inúmeras!

 Que a jornada comece! 

*

 

Porque eu sou uma abertura,

porque as noites cruzam os cometas,

porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,

porque abre as válvulas e se queima.

Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,

metendo-lhe mais força pelo fogo,

criança com um rastilho:

ou muita resistência na armadura, ou

peso, ou muita leveza, ou

dulcíssima:

ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de outro

– e o ourifício que traz para o visível

o segredo: gota

com a trama de pedra calcinada em torno,

a pedra só abertura pela potência

de um pouco de pólen

oculto.

Porque riscam com áscua,

porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,

porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,

porque as pontas irrompem do núcleo

do ouro pequeno.

 

Ofício cantante - Herberto Helder

 

*

 

 Meus agradecimentos à toda minha formação, às pessoas da minha vida, e um alô parceiro à minha professora de astrologia Julia Francisca (@trama_celeste), com quem venho construindo minha noção profissional e a proposta dos atendimentos astropoéticos. A partir desse encontro, juntei os pontos e entendi que a astrologia, a poesia e a linguagem trabalham juntas. Um abraço, professora! Que a educação seja instrumento da nossa revolta! 

 

*

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