A PRIMEIRA LUA

 Essa foto foi tirada no dia 26 de março de 1840, é a primeira fotografia da lua. A invenção da fotografia foi anunciada apenas um ano antes.
  A lua é esse satélite-astro mais próximo do nosso ponto de vista, da terra. Como muitos sabem, a dança dela com nosso planeta gera muitos movimentos magnéticos, modifica as marés, organiza o recebimento de luz noturna para as plantas e para os que se aventuram andando na noite. É guia, tanto pela luz, quanto pelo ritmo. Oferece uma organização, ciclos muito dela, singulares.
  É sobre isso: o ritmo. Os ritmos dos sonos, os ritmos diários, do nosso cuidado, dos nossos passos, da nossa dança mais própria, íntima. O signo de câncer é regido pela Lua e também regido pelo elemento água (não à toa a lua está interligada com a organização do mar). A água é esse elemento que se modula e também molda no que encosta, por exemplo, as pedras sendo desgastadas há milênios pelo movimento dos mares, dos rios, os rios dando jeito de criar novos caminhos. A água é famosa por sua intuição, saber entrar na hora certa, pra ser mais confortável, mesmo que por vezes mais agressiva, achar um canto seu, pra cultivar e encher de vida. Seguindo essa analogia, a lua é também esse ser aquático, que nos fornece a antena da intuição, quando acompanhamos a fase em que está, podemos seguir outras direções diante das nossas perguntas. Numa lua minguante não queremos cortar os cabelos pra não deixarem de crescer, bom mesmo é na lua nova, quando o próximo ciclo da lua está iniciando e o crescimento é certeiro. 

Primeira foto da lua - John W. Draper, 1840

 A lua também fala dos lugares conhecidos, das tradições mais antigas, passadas pela oralidade para nossa população, ou os conhecimentos que sua avó/avô te passou desde pequenina, os ensinamentos do povo originário da nossa terra, muito mais próximos dos ciclos da natureza, considerando todos os seres inteligentes perante o movimento orgânico terráqueo, chamo de seres desde a lama, o mineral, até o ar, as estrelas. 


  Pra’lém das analogias, dos símbolos que rodeiam a lua, um ensinamento que trago da minha formação como astróloga é: como utilizar essas analogias, símbolos e imagens como ferramentas para o cotidiano? Para a vida viva?

  O primeiro passo é a pergunta. Qual seu ritmo? Você engole a comida, mastiga devagarzinho? Anda correndo, é vagarosa? Como tem funcionado seu sono? Dorme muito, pouco, com rupturas ao longo da noite, sono profundo? Como você cuida do seu corpo? O que você faz para dar nutrição, acolhimento? Quais suas ferramentas pra dar colo aos incômodos, aos estranhamentos? O que te é familiar, conhecido? O que te faz sentir em casa, mesmo se estiver em outro país? 

  A brincadeira termina se a gente responde rápido e fixo. Acho mais generoso quando se responde abertamente, de jeitos diferentes. Cada pessoa pode se fazer essas perguntas, dar um sentido hoje, que mais tarde já não vai mais ser o mesmo e isso pode ser bom. 

  A vida não pára de ser investigação, tem sempre uma pergunta nova na espreita da nossa acomodação com um resposta. 

  Como você conversa com sua lua? Você tem ouvido os movimentos aquáticos dentro do seu corpo? Tem tomado água? 

 

*

 

 Nosso corpo é o oráculo da nossa existência. Nós, filhotes de ocidentais e colonizadores, fomos criados para não ouvir as demandas do corpo, não ouvir as demandas da natureza. Por isso o convite para darmos atenção ao que pede nossa casa-corpo, inclusive, pelos sonhos, que por mileuma imagens, produz saberes sobre as nossas vontades, nossos desejos, nossos medos, nossas projeções. Você tem pensado sobre os seus sonhos? Com essa quarentena, está conseguindo dormir mais? Ou as demandas são tantas que te roubam o tempo de dormir? 

 

​*

 

Antes do sol, puro gelo.

Depois de milênios derretendo, desde o mais malemolente,
seres se fabricam nos úteros do mundo. 

E nas margens marítimas, das águas paradas,
nas beiras, nas bordas, ganha forma, vida-vida.
Desde as primeiras, respira, oxigênio, hidrogênio, pelo pulso,
expande e contrai, inspira e ex, o que faz do nosso mundo um mundo,
onde se possa existir. 

Surgir. 

Surgir.

Das águas viemos e pra águas sempre voltamos.
Pelos sonhos retomamos, mil e uma histórias,
memórias íntimas, memórias planetárias, coletivas,
que só pelo sono remontamos.
Sob a vigília da lua nossos corpos descansam,
ela guia mesmo quando escura.
Embala e nina como redesenho por dentro da noite.
A noite entoa cantos, compõe paisagem de relance.
Nada é óbvio.
Nem está ao nosso alcance compreender conscientemente.
O tempo noturno se sente.
Intra.
Entre.
No cume da nossa cólera.
No pulso da nossa paixão.
Cânticos de revolta brotam feito daninhas.
Terreno da Imaginação.
Se não nos sobra tempo pra dormir,
como poderemos cultivar nossa criação? 

- por Anna Vis 

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Marjorie Cameron - Canções para as bruxas
Kamisaka Sekka - Onda Alta, 1909

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